O tempo e a areia do caminho

O Tempo e a Areia do Caminho

Ele escrevia, cada passo no caminho…olhava de quando em quando os olhos dela, cada momento era importante, cada instante , cada olhar.

Habituara-se a ver em cada instante um momento diferente, a ser o companheiro que o era mesmo quando não estava. Sabia que todos os viajantes desta grande aventura chegavam a ela com mazelas, com sacos de pesadas cargas que insistiam em transportar neste caminho.

O tempo para os dois não era fácil, mesmo assim, por vezes combinavam coisas possíveis no momento. Rapidamente ele colocava umas peças de roupa no saco, preparava algo para comer, esperava mais um pouco por ela e ao entardecer iam para um destino escolhido. Um sítio onde o tempo parava, onde a natureza falava bem alto. As folhas de um outono aqui e ali salpicavam os pedaços do momento. Ao chegar tomavam um banho, de roupão felpudo faziam um piquenique na varanda, olhavam a noite, faziam uma chávena grande de café que partilhavam no frio da noite. Tocavam-se ao de leve com sabor a café nos lábios sequiosos do tempo e do momento, as aves da noite passavam faziam ouvir o seu som.

Perdiam-se e voltavam a encontrar – se na pele de cada um, cada toque, cada afastar de cabelo para a olhar no fundo dos olhos e se perder de novo, sabia que ali e naquele momento estava no caminho.

Quando surgia a manhã ela levantava-se no silêncio, ele despertava leve , ia ao seu encontro na varanda, quando ela dobrada, com uma chávena de café na mão se perdia, doce no vazio que o toque dos lábios dele despertava…..

A Pena da Escrita

 

 

 

A Pena da Escrita

Foram mensagens, momentos, conversas. Por vezes um entrelaçar de dedos tímido e escondido. Havia um sentir forte, um desejo permanente de estar com ela. A mensagem da manhã indicava o estado de espírito dela, por vezes as suas palavras eram mais breves, outras vezes, uma simples palavra fazia com que ele fosse trabalhar cheio de força com vontade de a ver depois da hora do jantar. Comunicavam várias vezes durante o dia, ele sedento das palavras dela, muitas palavras cúmplices, parecia que nunca iam parar de se conhecer ,tanto havia para saber e os seus caminhos tinham sido tão diferentes mas tão próximos que até arrepiava como nunca se tinham cruzado na história da vida.
Quando saia do trabalho ficava a aguardar o contacto dela, um simples sinal fazia-o pensar, sorrir ao vento sentir se feliz rir-se para as pedras da rua e para a caruma ondulante dos pinheiros em cada caminho por que ia passando. Ele sabia que os sentimentos não se conseguem medir, que as palavras são apenas palavras….. mas conseguia comparar no caminho da vida e no tempo a intensidade do seu sentir.
Por vezes na corrida que as suas vidas permitia iam até à margem do rio, timidamente davam as mãos, timidamente conseguia um beijo com sabor a café. A menina esguia de rosto triste e muitas vezes perdido nas nuvens e tempestades do passado olhava no vazio enquanto o fumo do seu cigarro esquecido entre os dedos pairava no ar. Ele gostava de a ver sorrir, de lhe desviar as farripas douradas de cabelo no rosto, de lhe segredar sonhos ao ouvido, de a fazer sentir o sol da vida. Ela por vezes sorria às tentativas dele, queria ser uma mulher forte. Ele gostava de correr o caminho com ela e de amparar os seus sonhos… mesmo quando descia as escadas da casa dela, depois de um chá partilhado na pedra da lareira e conseguia dos seus lábios um beijo escondido…… sentia tudo

Passos Leves como um beijo

Passos leves como um beijo

Passaram poucos dias, a distância fazia pesar o tempo até a ver de novo. Desta vez ela não o surpreendeu, olhava para o sítio certo da ponte. Viu quando ela chegou, estacionou o carro, saiu, atravessou a ponte de madeira sobre o rio. Nos últimos dias fez-lhe falta aquele beijo leve de despertar, o sabor do café nos seus lábios, um sussurro nos seus ouvidos e o toque da sua pele.
Enfim ela estava ali de novo, deu-lhe dois beijos fugidios, olhando para os lados parecia auscultar o mundo com todos os sentidos. Conversaram das suas vidas, da tarde e noite que passaram juntos. O misto de sensações, a intensidade de cada momento. A menina estava novamente com os olhos tristes, por vezes havia ali um brilho igual ao que ele vira nos olhos dela naquela noite, igual ao brilho feliz e tranquilo daquele acordar sôfrego e diferente.
Contou-lhe melhor o seu curso de vida e pouco a pouco ele ficou a saber que a vida dela também não tinha sido fácil. Por vezes sentia vontade da abraçar, de a beijar ali mesmo, vontade de a proteger daqueles mistérios que a faziam ter receio de estar ali com ele. Mas assim que um lampejo mais carinhoso se acendia nos olhos dele, ela reprimia-o carinhosamente com um olhar de aqui não…
Havia sonho, vontade, intensidade e também mil mistérios por descobrir no olhar que ela lançava no vazio quando a o fumo do seu cigarro se perdia no ar. Ficou a ver a sua figura esguia atravessar a ponte sobre o rio .
Entrou no carro e pensativo , viu todas as imagens desde que a tinha conhecido… no computador, as mensagens trocadas, o olhar terno naquela noite que saíram e de quando em quando o seu olhar perdido no vazio e os seus mistérios.
A sua vida era feita por muitos lugares, muita gente, muitas histórias. Sabia que quando se conhece alguém e se conhece alguém nunca nos chega sozinho. Estacionou o carro e por instinto enviou-lhe uma mensagem , a saudade já tinha chegado…