Perdido

Perdido

Os dias eram intermináveis. Quando chegava a tarde saía do emprego e esperava a mensagem dela, que por vezes tardava, ou então não aparecia. Caminhava pelas ruas, olhava as mesmas montras vezes sem fim. A noite chegava fria, austera, então enviava uma mensagem, por vezes telefonava, quando ela não atendia , sentia-se mais só, a espera ,era dor.

Quando subia as escadas ao seu encontro , abria-se a porta, procurava os seus lábios, por vezes fugidios. Sentavam-se na luz da lareira, no som da noite, puxava a cabeça dela para o seu ombro, tentava na partilha do momento e do sonho aliviar os pesos que ela transportava.

Muitas das vezes ficavam assim momentos, silêncios…..
Os segredos que ela insistia em guardar…. os assuntos de que ela não gostava de falar….o passado… atormentavam -na , voltavam muitas vezes.

Ele sabia, conhecia alguns dos mistérios , sabia até alguns dos segredos que ela julgava bem guardados, pois o mundo é um sítio tão pequeno e ele conhecia muitos dos viajantes do caminho.

No calor da partilha ele partilhava com ela, os seus segredos, os seus mistérios, aliviava com a sua companheira de caminho a carga da vida que todos transportamos.

Por vezes lembrava algo que um velho professor de filosofia repetia e que de vez em quando fazia todo o sentido ( muitas das pessoas passam pela vida sem se dar conta do mistério da vida)…

Mas havia noites em que ela queria lembrar o passado de longe. Procurava  recordar, constantemente, nos caminhos do meio da vida, antes dele surgir uma espécie de castigo.

Nos mil silêncios da noite, apesar de o ter ali, com um olhar no vazio, fugia, e alimentava religiosamente os seus fantasmas……

Os segredos da lua cheia

Os Segredos da Lua Cheia

A noite estava fresca quando estacionou o carro no local   que tinha escolhido. Nas margens do grande rio de onde se avistam serranias e socalcos. A troca de mensagens fora breve, a menina estava cheia de mistérios na voz.         Ela tinha deixado o carro perto da casa dele , mais uma vez insistia na descrição, ele nem ligava nada a esses pormenores.    Durante o caminho notara muitos silêncios havia algo de estranho de diferente. Havia no ar aquela estranha sensação deela lhe querer dizer ou contar algo e que da garganta não passava.

Sabia que as pessoas se revelam no caminho e mesmo que o não digam trazem na bagagem os restos do passado .

Um dia alguém lhe disse para nunca voltar onde já tinha sido feliz um dia, mas ia por vezes só e nostálgico a esses locais feitos do cimento forte da recordação embebido na água da saudade.

Entraram no quarto, estava frio, decidiram ir tomar um banho quente. Enquanto a água do chuveiro salpicava o momento, trocaram breves carícias, beijos longos, intensos e molhados no tempo. Dois roupões felpudos ,  duas chávenas de café a varanda, os ruídos e as sombras da noite, a passagem dos morcegos e a paz inquieta….que hoje os une.

O frio da noite, a porta do sonho que corre,  o toque da pele com a pele, o silêncio de cada pedaço que os une naquele momento, a planície, as montanhas, os sussurros das ondas, calmas e depois tormentosas….. inebriante, quase febril o rio que desagua num mar de sal. Faz-se de novo o silêncio. A menina dobra o seu corpo prende o braço dele no momento da noite. Mantém ainda os segredos sofridos e depois vingados que trás na bagagem. Pela manhã perde o olhar no frio e vazio da neblina, aquece as mãos e os lábios, aproxima-se dele ( um dia vou contar ….). Docemente junta os seus lábios aos dele…onde deixa ao sabor a café.

O tempo e a areia do caminho

O Tempo e a Areia do Caminho

Ele escrevia, cada passo no caminho…olhava de quando em quando os olhos dela, cada momento era importante, cada instante , cada olhar.

Habituara-se a ver em cada instante um momento diferente, a ser o companheiro que o era mesmo quando não estava. Sabia que todos os viajantes desta grande aventura chegavam a ela com mazelas, com sacos de pesadas cargas que insistiam em transportar neste caminho.

O tempo para os dois não era fácil, mesmo assim, por vezes combinavam coisas possíveis no momento. Rapidamente ele colocava umas peças de roupa no saco, preparava algo para comer, esperava mais um pouco por ela e ao entardecer iam para um destino escolhido. Um sítio onde o tempo parava, onde a natureza falava bem alto. As folhas de um outono aqui e ali salpicavam os pedaços do momento. Ao chegar tomavam um banho, de roupão felpudo faziam um piquenique na varanda, olhavam a noite, faziam uma chávena grande de café que partilhavam no frio da noite. Tocavam-se ao de leve com sabor a café nos lábios sequiosos do tempo e do momento, as aves da noite passavam faziam ouvir o seu som.

Perdiam-se e voltavam a encontrar – se na pele de cada um, cada toque, cada afastar de cabelo para a olhar no fundo dos olhos e se perder de novo, sabia que ali e naquele momento estava no caminho.

Quando surgia a manhã ela levantava-se no silêncio, ele despertava leve , ia ao seu encontro na varanda, quando ela dobrada, com uma chávena de café na mão se perdia, doce no vazio que o toque dos lábios dele despertava…..