A Pena da Escrita

 

 

 

A Pena da Escrita

Foram mensagens, momentos, conversas. Por vezes um entrelaçar de dedos tímido e escondido. Havia um sentir forte, um desejo permanente de estar com ela. A mensagem da manhã indicava o estado de espírito dela, por vezes as suas palavras eram mais breves, outras vezes, uma simples palavra fazia com que ele fosse trabalhar cheio de força com vontade de a ver depois da hora do jantar. Comunicavam várias vezes durante o dia, ele sedento das palavras dela, muitas palavras cúmplices, parecia que nunca iam parar de se conhecer ,tanto havia para saber e os seus caminhos tinham sido tão diferentes mas tão próximos que até arrepiava como nunca se tinham cruzado na história da vida.
Quando saia do trabalho ficava a aguardar o contacto dela, um simples sinal fazia-o pensar, sorrir ao vento sentir se feliz rir-se para as pedras da rua e para a caruma ondulante dos pinheiros em cada caminho por que ia passando. Ele sabia que os sentimentos não se conseguem medir, que as palavras são apenas palavras….. mas conseguia comparar no caminho da vida e no tempo a intensidade do seu sentir.
Por vezes na corrida que as suas vidas permitia iam até à margem do rio, timidamente davam as mãos, timidamente conseguia um beijo com sabor a café. A menina esguia de rosto triste e muitas vezes perdido nas nuvens e tempestades do passado olhava no vazio enquanto o fumo do seu cigarro esquecido entre os dedos pairava no ar. Ele gostava de a ver sorrir, de lhe desviar as farripas douradas de cabelo no rosto, de lhe segredar sonhos ao ouvido, de a fazer sentir o sol da vida. Ela por vezes sorria às tentativas dele, queria ser uma mulher forte. Ele gostava de correr o caminho com ela e de amparar os seus sonhos… mesmo quando descia as escadas da casa dela, depois de um chá partilhado na pedra da lareira e conseguia dos seus lábios um beijo escondido…… sentia tudo

Passos Leves como um beijo

Passos leves como um beijo

Passaram poucos dias, a distância fazia pesar o tempo até a ver de novo. Desta vez ela não o surpreendeu, olhava para o sítio certo da ponte. Viu quando ela chegou, estacionou o carro, saiu, atravessou a ponte de madeira sobre o rio. Nos últimos dias fez-lhe falta aquele beijo leve de despertar, o sabor do café nos seus lábios, um sussurro nos seus ouvidos e o toque da sua pele.
Enfim ela estava ali de novo, deu-lhe dois beijos fugidios, olhando para os lados parecia auscultar o mundo com todos os sentidos. Conversaram das suas vidas, da tarde e noite que passaram juntos. O misto de sensações, a intensidade de cada momento. A menina estava novamente com os olhos tristes, por vezes havia ali um brilho igual ao que ele vira nos olhos dela naquela noite, igual ao brilho feliz e tranquilo daquele acordar sôfrego e diferente.
Contou-lhe melhor o seu curso de vida e pouco a pouco ele ficou a saber que a vida dela também não tinha sido fácil. Por vezes sentia vontade da abraçar, de a beijar ali mesmo, vontade de a proteger daqueles mistérios que a faziam ter receio de estar ali com ele. Mas assim que um lampejo mais carinhoso se acendia nos olhos dele, ela reprimia-o carinhosamente com um olhar de aqui não…
Havia sonho, vontade, intensidade e também mil mistérios por descobrir no olhar que ela lançava no vazio quando a o fumo do seu cigarro se perdia no ar. Ficou a ver a sua figura esguia atravessar a ponte sobre o rio .
Entrou no carro e pensativo , viu todas as imagens desde que a tinha conhecido… no computador, as mensagens trocadas, o olhar terno naquela noite que saíram e de quando em quando o seu olhar perdido no vazio e os seus mistérios.
A sua vida era feita por muitos lugares, muita gente, muitas histórias. Sabia que quando se conhece alguém e se conhece alguém nunca nos chega sozinho. Estacionou o carro e por instinto enviou-lhe uma mensagem , a saudade já tinha chegado…

Acreditar no tempo

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Era uma situação nova, era sentir, era pensar em cada momento. Algo nela o tinha tocado. Isto nunca lhe tinha acontecido, o tempo na sua vida também não era assim tão fácil de gerir. Trocava mensagens com ela, por vezes ficava impaciente na espera da resposta. Isto não lhe estava a acontecer, ele que pensava ser tão seguro de si. Um misto de gostar e de revolta pois não estava a controlar o seu sentir, o desejo de cada contacto com ela era crescente, uma vontade forte de a ver, dizer o que ficou por dizer, tocar a sua pele, sentir o seu perfume. Trocavam mensagens várias vezes ao dia. Crescia uma vontade tremenda do próximo encontro real. Foram falando do que gostavam e também de lugares bonito. Ele conhecia sítios bonitos por via da sua experiência meio nómada de ano após ano os ter percorrido. Numa mensagem arriscou, sugeriu que podiam ir ficar a um desses locais com serra água e sentir. Ela aceitou, ele sentia cada dia que passava uma vontade mais forte de a ver. Combinaram, ela ia ter com ele e depois saiam os dois no carro dele.
A menina chegou trazia o seu saco de viagem que colocaram no carro dele. Estava feliz, sensações novas e fortes percorriam o seu ser, conduziu para destinos que conhecia de outros tempos, não tinha marcado nada, tinham combinado ficar apenas uma noite. Estradas secundárias e caminhos no meio do nada…iam conversando, uma cumplicidade estranha e doce crescia. Chegaram a um sítio escarpado que descia para um vale grande onde se podia ver um belo espelho de água. Caminharam até perto da água, pararam numa esplanada de onde se podia ver a água e as escarpas até ao infinito, pediram cafés e conversaram, os olhos cúmplices encontravam-se a cada momento. O fresco da tarde começou a cair, subiram lentamente a pequena encosta, no meio de castanheiros, caminhavam devagar, por vezes sem as palavras, ele voltou se, olhou a nos olhos e beijou – a, leve doce, repetidas vezes. A menina fez um sorriso brincalhão, estava à espera daquele beijo. Ali perto estava uma residencial com diversos autocarros estacionados, ouvia-se música. Não poderiam ficar ali. Consultam os telemóveis, ligam, precisam arranjar sítio para comer e pernoitar, estão no meio do nada. É noite, chegam a uma aldeia perdida, com dificuldade encontraram o alojamento rural. Entram num pequeno estúdio feito em xisto, nada de especial mas agradável. A menina conversa descontraidamente, abre a porta que dá para um jardim, fuma um cigarro, juntos olham as estrelas, a noite é deles. A cama fica no centro perto de uma lareira, ela surge com uma camisa de dormir branca, deita se ao lado dele. Conversam, estão muito próximos…beijam-se leve, tocam-se com carinho. Percorre o corpo dela, ternamente, sente coisas… novas, fortes intensas. Ela retira as peças de roupa que ainda lhe cobrem o corpo. Sente a pele dela macia, sedenta de si.
Envolve o seu corpo num só, sente cada pedaço de pele nos seus lábios, cada momento.
Respiram, doce, lenta….apressadamente. Olham se nos olhos sedentos de vida…e envolvem-se no sonho .